segunda-feira, 5 de maio de 2014

O SILÊNCIO DOS ESPAÇOS INFINITOS... NOS ASSUSTA

Mira Schendel

Mandala, 1974


E assim, estávamos nós em círculo para o começo da aula. A proposta voltava-se para a escuta de um repertório bem pouco usual entre os participantes, um repertório voltado para a produção de música contemporânea. Contemporânea no sentido da produção do século vinte e que  se estende até hoje, no nosso contemporâneo, onde todos nós convivemos.

Da lista de músicas sugeridas por George Self, muitas já fazem parte do clássico contemporâneo. A escuta é feita durante a semana, acessando o youtube, lógico, e as impressões são reveladas em grupo durante a aula. Faz parte da programação da disciplina de Prática Pedagógica V. Há quem já tenha se aproximado deste tipo de música, está revisitando o universo, mas há também quem seja  novato de primeira e  a surpresa diante do novo causa um choque  maior!

Acontece que George Self, em seu livro New Sounds in Class, enaltece a importância do trabalho da educação musical que se volta para seu tempo, (o nosso!),  e não para o passado. Assim sendo os procedimentos empregados em sala de aula  abrem espaço para uma nova forma de fazer música,  para uma nova forma de escuta também. Diante disso,  qual o caminho que se apresenta ao educador? É necessário se aproximar deste repertório, conhecê-lo, para que se  possa assimilar esta nova linguagem, ou linguagens, e assim passar pra frente, ampliar as possibilidades de seus futuros alunos também.

George Self faz parte da geração de educadores musicais da segunda metade do século XX, que acreditava na criação como um elemento propulsor. Por outro lado, esta geração também acreditava na importância do fazer musical voltado para um pensamento contemporâneo. Como nos explica Marisa Fonterrada: ” Os educadores musicais deste período alinham-se às propostas da música nova e buscam incorporar à prática da educação musical nas escolas os mesmos procedimentos dos compositores de vanguarda, privilegiando a criação, a escuta ativa, a ênfase no som e suas características , e evitando a reprodução  vocal e instrumental do que denominam música do passado”.(pg. 179)

Se pensarmos que nossa audição está amparada no sistema tonal, que nosso dia a dia, desde o nascimento, é pontuado por fatos que são enfatizados por um repertório tonal, como o parabéns a você, a marcha nupcial, a música que acompanhou o primeiro namoro e assim por diante, podemos compreender que nosso afetivo traça uma parceria com esta familiaridade  e lhe confere um significado importante. Sair desta esfera é praticamente perder a identidade, perder os valores que nos acompanharam durante a vida! É ficar no vácuo!

Não é fácil!!! Por outro lado, como educadores, é necessário estarmos abertos aos novos processos! O educador está sempre em constante movimento, em constante transformação interna! Já se disse muito por aí...que ensinar é uma coisa mas educar exige esta metamorfose intensa!

Aproveitando, então, a lista de músicas apresentada por George Self, eu sugeri uma em particular para o grupo ouvir. Trata-se de uma peça do Cage, “Music for amplified toy pianos”. Achei que esta peça em especial poderia fazer uma bela ponte entre a composição e a educação musical já que se utiliza de brinquedos sonoros, pequenos instrumentos musicais, além de outros ruídos.

Começamos a aula em roda, como de costume, e as observações a respeito da escuta foram sendo colocadas. O grupo, de uma forma geral, achou  uma escuta bem difícil, quase árida, eu pude perceber! 

Além do estranhamento em si, outro fator mobilizou muito o grupo,  a questão da grande rarefação existente na peça, os longos silêncios entre os sons! Esta descontinuidade aliada à materialidade sonora afastou o grupo de qualquer possível cumplicidade afetiva com a música!

Pensei em propostas que pudessem propiciar vivências ao grupo, ampliando a escuta propriamente dita, e  assim sendo, na aula seguinte tínhamos em mãos um arsenal de pequenos brinquedos sonoros, objetos sonoros também e instrumentos. Cada um trouxe sua contribuição.

Primeiro passo, exploração do material trazido. Levantamento de timbres inusitados. Em seguida, escolher alguns e começar a criar uma organização com grandes intervalos de silêncio. Dividi o grupo  em  duplas. 

Depois da apresentação, ainda achei que os silêncios não eram suficientemente longos e pedi que refizessem alargando mais. Na sequência,  pedi que escolhessem outros timbres e se preparassem para uma improvisação com o grupo todo. “Muita escuta, e tentem conservar grandes espaços de silêncio”. Percebia que a familiaridade começava a se instalar entre os participantes. Para fechar, propus que cada um escolhesse apenas um timbre e dentro do espaço de tempo que eu regia, escolhesse o momento certo para executar. Cada vez que repetíamos,  eu alargava mais o tempo e o grupo deveria executar seu som apenas uma vez.

Pedi que ouvissem novamente a peça de Cage para a semana seguinte e que percebessem se a escuta havia sido mais fácil. Parece-me que a vivência anterior pode amenizar o primeiro impacto da escuta. O fazer em classe imprimiu esta memória, houve uma assimilação. De toda forma, ainda para o novo encontro,  trouxe propostas referentes a esta questão para que pudéssemos  chegar mais perto ainda de uma melhor assimilação.

Desta vez, coloquei o corpo e o espaço mais presentes em nossos jogos. Deixamos a classe quase vazia, retiramos a maioria das cadeiras e pedi que espalhassem o material por todo o espaço. Cada um ficaria recuado, encostado na parede para que pudéssemos começar. Inicialmente, o foco estava na produção dos espaços vazios, nos  longos silêncios que deveriam ocorrer a partir do andar de cada um pelo espaço. Os andamentos, com certeza eram lentos. Sustentariam com o próprio corpo, com o próprio andar, os longos  silêncios em direção ao alvo escolhido para ser executado. Dariam  certa concretude ao vazio com a movimentação dos corpos. Tratava-se de uma improvisação. Na segunda vez, propus que direcionassem a escuta individual para o grupo, tentando jogar com os sons que recebiam dos demais. Uma verdadeira improvisação grupal!

Nas observações feitas pelo grupo, logo após, um dos participantes colocou sua ansiedade para produzir o som que se encontrava muito distante e sendo assim, deixava de apreciar os silêncios que ocorriam. Tentei aprimorar a proposta, pedindo, então, que andassem pelo espaço da sala juntamente com seus objetos sonoros e que os manipulassem quando a audição individual desse o aval!  A ansiedade foi amenizada.
Poderíamos ficar ainda um bom tempo criando novos exercícios, jogos, para que a escuta pudesse enfim se tornar mais familiar à medida que a participação criativa e corporal proporcionava um grande suporte à assimilação do novo repertório. São procedimentos que visam à participação inteira do sujeito e não apenas a um recorte, ou seja,  a audição.

Guy Reibel, músico francês também voltado a questões educacionais,  ao se preocupar, nos anos 70,  com a pouca aceitação do público com relação à música contemporânea, chegou à conclusão de que  a escuta propriamente dita deveria estar acompanhada por  uma apropriação criativa, um desenvolvimento das faculdades de invenção por parte do ouvinte. Assim sendo dedicou-se a trabalhar com grupos de pessoas durante mais de quinze anos em Paris. Os seus “Jogos Musicais” (Jeux Musicaux) foram criados tendo este propósito.

E como ficamos agora com o outro lado da moeda? O educador que proporciona novas experiências a seus alunos?

A partir do momento que o educador pôde se apropriar de novos procedimentos musicais e que estes,  de fato,  passaram a ser significativos para ele, estará pronto para compartilhá-los com seus alunos. O importante é tecer estratégias interessantes para preservar o envolvimento dos alunos. Um caminho que tenho usado muito é utilizar uma história como eixo principal. Garantindo este eixo, garantindo uma ligação afetiva, podemos apresentar propostas a partir dos conteúdos escolhidos  para o trabalho. É importante também que não se perca o prazer de participar e pesquisar. O jogo pode garantir este clima. Quando a sintonia entre educador, proposta e alunos atinge uma cumplicidade orgânica, podemos viver uma verdadeira experiência estética...numa simples aula semanal.

E assim a partir do alargamento de  nosso repertório musical podemos também contribuir para a ampliação do universo de nossos alunos.

Referências bibliográficas

 Fonterrada, Marisa Trench de Oliveira. De Tramas e Fios: um ensaio sobre música e educação. São Paulo: Unesp, 2008.
 Reibel, Guy. Jeux Musicaux. Vol. I: Jeux Vocaux. Paris: Éditions Salabert, 1984.
Self, George. New Sounds in Class. London: Universal Edition, 1967.

Leituras recomendadas

Campos, Augusto de. Música de Invenção. São Paulo: Perspectiva, 2007.
Griffiths, Paul. A Música Moderna. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
Ross, Alex. O resto é Ruído. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

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